domingo, 27 de fevereiro de 2011

Benedito Nunes: uma estrela do norte que brilha no mundo


Filósofo, crítico, ensaísta e escritor. Essas são só algumas atribuições de Benedito Nunes, que, literalmente, vive uma vida entre livros. Paraense de Belém, aos 81 anos Benedito Nunes é reconhecido em todo o mundo como um dos maiores intelectuais vivos. Entretanto, com a humildade de poucos, o Doutor Honoris Causa, se intitula como professor, mas Bené, como carinhosamente é chamado pela comunidade acadêmica, é muito mais que um querido mestre.

Aos 4 anos, Benedito Nunes começou a ser alfabetizado na Escola “Sagrado Coração de Jesus”, que pertencia a uma tia. A leitura era um hábito na casa da família Nunes e a paixão pelos livros foi despertada desde a infância e se acrescentou ao seu natural autodidatismo. Não é a toa que hoje ele tem uma biblioteca com tantos livros que já se perdeu a conta. Na adolescência, quando estudava no colégio Moderno, escrevia periódicos para escola e também colaborou até recentemente com ensaios filosóficos para os jornais A Folha do Norte (1964), Jornal do Brasil (de 1956-1961), Jornal do Estado de São Paulo (193-977) e Folha de São Paulo (1975-2006).

Na crítica literária, Benedito ficou conhecido por analises das obras de escritores de renome. Em 1966, publicou “O mundo de Clarice Lispector”, sua primeira obra. Clarice foi sua amiga e constante tema de suas publicações. João Cabral de melo Neto, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Mário Faustino também foram esmiuçados pelo crítico.

“Certa feita o escritor Guimarães Rosa passou por Belém, nos anos 60, e aí disseram: ‘quer deixar um recado? ’ e ele disse ‘ao professor Benedito Nunes, que eu não conheço mais é o grande crítico da minha obra’, relembra o professor Paraguassú Elleres, que conhece Bené desde os 15 anos de idade.

Na filosofia, a contribuição de Benedito é de extrema importância para o desenvolvimento desse campo no Pará. Em 1954, ele ajudou a fundar a Faculdade de Filosofia do Pará, sendo professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA), que nessa época ainda não tinha curso de Filosofia, só matérias filosóficas que pertenciam ao programa de outros cursos. E como não poderia ser diferente, em 1975, participou da criação do curso na instituição. Atualmente, mesmo aposentado da função de professor desde o início da década de 1990, ainda realiza conferências e seus ensaios são referências na academia.

Em um casamento de sucesso da literatura com a filosofia com correlações, afinidades e oposições, divagou e depurou a obra de Nietzsche, Kant, Spinoza Wittgenstein, Paul Ricoeur (de quem foi aluno quando fez especialização na França) e Heidegger. O livro “Com Passagem para o Poético: Filosofia e Poesia em Heidegger”, de 1986, lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Literatura do ano de 1987

E não foi só no campo literário e filosófico que Benedito se destacou, ele e a sua mulher Marya Sylvia Nunes contribuíram para a modernização do teatro paraense. A adaptação de “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto e a apresentação da peça no 1º Festival Nacional de Teatro Amador, em 1958, na cidade de Recife, garantiu a Benedito o prêmio de melhor adaptação teatral, enquanto que para sua mulher, Maria Sylvia Nunes, o de melhor direção.

Em entrevista dada a Jose Castello do Estado de São Paulo, Benedito fala do quanto está próximo à escrita: “Não sei se sou filósofo. Talvez não passe de um professor de filosofia aposentado. Mas procuro ser um bom escritor”. E a lista de obras é enorme: O Mundo de Clarice Lispector (1966), Poesia de Mário Faustino (1966), O Dorso do Tigre (1969), Leitura de Clarice Lispector (1973), O Livro do Seminário (1983) Passagem para o Poético: Filosofia e Poesia em Heidegger (1986), O Tempo na Narrativa (1988), A Paixão Segundo GH/ Clarice Lispector (1988), O Drama da Linguagem: uma Leitura de Clarice Lispector (1989). O Crivo de Papel (1999), Hermenêutica e Poesia — O Pensamento Poético (1999) são algumas das publicações.

Como parte das comemorações dos 80 anos de Benedito Nunes, ano passado foi lançado o livro "A Clave do Poético", organizado por Victor Sales Pinheiro, que garimpou mais de 200 ensaios de Benedito e recebeu autorização dele para procurar editoras que quisessem publicar. O livro tem o prefácio de prefácio de Leyla Perrone-Moisés e divide-se em duas partes tematicamente orientadas: a primeira se dedica à investigação epistemológica e à historiografia literária e a segunda traz textos monográficos e aborda autores como Carlos Drummond de Andrade, T. S. Eliot, Antônio Vieira e Clarice Lispector.

Em Benedito, não se destaca só a inteligência, mas o caráter e originalidade. “Ele como procurador aposentado do tribunal de contas do estado, teve a audácia subversiva de pedir que por princípio de justiça lhes fosse reduzido o salário e esse pedido , evidentemente, não foi atendido, já que se estenderia à nova geração de procuradores e auditores”, relebra o Professor Paraguassu Elleris.

Ano passado, a Universidade da Amazônia (Unama) concedeu a Benedeito o título de Doutor Honoris Causa, a condecoração máxima oferecida por uma instituição de ensino. O conjunto de suas obras, a conduta ética e a contribuição para uma sociedade mais humana e digna, foram alguns dos motivos da concessão. “É um reconhecimento que muito me agrada, o título e a apreciação de meus pares”, afirmou o escritor.

No mês em que se comemorou os 80 anos de Benedito, a Unama e o Centro de Cultura e Formação Cristã também realizaram o congresso “Benedito Nunes: pensador brasileiro”. Debates, palestras, cursos, mesas redondas e lançamento de livros, fizeram parte da programação do evento, que teve a participação de professores de várias universidades do país e teve o objetivo apresentar e debater a obra de Nunes, tanto no âmbito da crítica literária quanto no da reflexão filosófica, entender como o próprio autor avalia sua trajetória intelectual e analisar de que modo é feita a associação entre a literatura e filosofia.

Tais homenagens refletiram um fato inédito: o reconhecimento em vida de uma grande figura, que mesmo com o sucesso e reconhecimento nunca abandonou sua terra e em muito contribuiu e contribui para a cultura e educação do Estado. “Benedito Nunes representa a intelectualidade da nossa terra. Nesses 80 anos, ele conseguiu acumular uma obra, um conhecimento e várias ações que fazem com ele represente não só aqui na nossa terra, mas no Brasil e no exterior, tudo de com que existe em termo de intelectualidade brasileira”, conclui a Professora Célia Jacob, coordenadora do curso de Letras da Unama.


*Texto escrito em 2009 e postado hoje em homenagem a Benedito Nunes que, agora sim, é uma estrela.

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